Vivendo
Você acorda todo dia, cinco minutos depois do que deveria. Apronta-se rapidamente, toma um pouco de café (que nunca está do jeito que você gosta), pega seu carro e parte para seu trabalho. Você se irrita no trânsito, xinga alguém que tenta entrar na sua frente, finge que não vê alguém que pede passagem. Você liga seu cd player e o ar condicionado do seu carro, fecha os vidros e simplesmente tenta ignorar que há um mundo lá fora.
Você chega ao seu trabalho mal-humorado como quase sempre está durante as manhãs. Você deseja bom dia para todos que você imagina que mereçam, e finge que não vê aqueles que você não quer cumprimentar. Você se irrita com a vassoura do faxineiro que quase acerta o seu pé, e pragueja pela primeira vez nesse dia.
Você chega em sua sala e lembra-se da montanha de problemas que terá para resolver. Você se lembra vagamente que não era esse o trabalho que você queria para sua vida, suspira e tenta esquecer, pois sabe que será mais um longo dia. Você trabalha competentemente o dia inteiro, mas sente que não há mais entusiasmo nisso. Você almoça, conta basicamente
as mesmas piadas para as mesmas pessoas, fala mal daqueles que não estão por perto, e tenta agradar aqueles que possuem alguma influência, sem parecer falso.
Você volta para casa todos os dias, e encontra lá uma mulher que um dia você amou e que hoje lhe parece uma estranha. No jantar, você conversa sobre o futuro dos seus filhos, sobre o tanto que ainda falta para sua aposentadoria e sobre quanto você irá gastar na pintura da casa. Você descobre que não ganha mais tanto quanto imaginava, e chega a conclusão de que deve conter suas despesas. Você faz as contas e descobre que ainda não pode comprar aquela televisão com uma tela enorme que você
namora há quase um ano.
Assim você vive, dia após dia. Você acorda decidido, e diz que de hoje em diante tudo será diferente, que você irá viver da maneira que sempre achou que deveria, e você somente volta a pensar nisso no final do dia e descobre transtornado que foi apenas mais uma daquelas falsas promessas que você sempre faz a si mesmo.
Você olha a grama no inverno, e diz que mal pode esperar as chuvas de verão, para que a grama volte a ficar verde e linda. Você olha as tardes chuvosas de verão, e espera que o inverno chegue logo para que você não precise se molhar tanto. Você passa a odiar o inverno, pois não suporta vestir tanta roupa e dormir soterrado pelos cobertores, e detesta o verão, pois simplesmente acha insuportável transpirar o dia inteiro.
Você vive dia após dia, mês após mês, ano após ano, esperando o próximo final de semana quando você finalmente irá viajar para o litoral, esperando o próximo mês, pois então você estará de férias,esperando o próximo ano, quando a situação do país irá melhorar e então você talvez receberá uma promoção. Você transfere suas esperanças para amanhã, e acha que sempre haverá amanhã. Você
faz aniversário e fica feliz quando alguém lhe diz que você parece cinco anos mais novo, mesmo sabendo que talvez não seja um elogio sincero. Você se lembra do tempo em que você subia vários lances de escada sem ter que parar para descansar, e do tempo em que mulheres lindas e jovens ainda correspondiam aos seus olhares. Você encontra um solitário e precursor fio de cabelo branco entre seus
cabelos pretos, arranca-o e não fala nada pra ninguém.
Você faz as contas e descobre que quando seu pai tinha sua idade você o achava velho. Se aposenta, e acha que finalmente irá aproveitar a vida. Então você descobre que detesta dormir tarde, que não consegue mais entender e apreciar os
enredos dos novos filmes e que o teatro lhe deixa incrivelmente sonolento. Descobre que as músicas que você gostava já não tocam mais nas rádios, e que você somente encontrará discos de seus cantores preferidos em antiquários.
Você sorri constrangido quando alguém levanta-se no ônibus e cede o lugar para você, preferindo que isso não acontecesse. Você disfarça o assombro quando aquele garotinho lhe chama de vovô, e sente algo estranho no estômago quando descobre que amigos seus, que aprenderam a fumar escondidos juntos com você, começam ter suas missas de sétimo dia encomendadas.
Você se pega um dia fazendo planos para o futuro, sentado numa poltrona em frente a uma lareira, numa tarde fria de inverno. Então você sente uma grande dor no peito, e sente que já não sentirá mais nada. Você tem vontade de chorar, e descobre que ainda não estava pronto para morrer. Mas morre.
Você se vai, e seu corpo é enterrado em um cemitério muito bonito, todo gramado e cheio de jardins floridos. E o tempo, incrivelmente, ainda passa, e cada vez mais você vai sumindo, deixando de existir nas lembranças e memórias de todos. Até que um dia, seu ente mais querido, ou a pessoa da qual você mais gostava se esforçará, mas simplesmente não conseguirá mais se lembrar do doce e triste sorriso que estava em seu rosto quando você foi enterrado.